A cidade ainda se habituava ao novo estatuto. Era oficialmente "cidade" há poucos anos, mas continuava a cheirar a vila industrial: a ferro queimado, a oficinas antigas, a fábricas que tinham dado trabalho a gerações inteiras e agora dormiam silenciosamente, como animais cansados. Para Daniel, tudo aquilo era normal. Era o som de fundo da infância: o barulho distante das máquinas que já ninguém ligava, o eco dos camionistas a descarregar, o arrastar das caixas na praça aos sábados. Crescer ali era crescer entre o velho e o novo, entre o que a cidade tinha sido e o que tentava desesperadamente ser. No centro desse mundo estranho erguia- se o prédio onde ele vivia – o maior da cidade. Um bloco alto, cinzento, quase arrogante no meio das casas baixas que o rodeavam. As pessoas ainda comentavam aquilo como quem comenta um exagero: - Quem é que precisa de um prédio daqueles aqui? Daniel não sabia se alguém precisava, mas ele agradecia. Do nono andar, via mais longe do que qualquer criança que conhecia. E era ali, naquela varanda estreita, que ele aprendia a observar o mundo como se estivesse num lugar alto demais para interferir. A família estava espalhada pela rua como peças de xadrez cuidadosamente colocadas. Os dois avós moravam a cinquenta metros, assim como os tios-avós uma decisão estratégica dos pais, que equilibravam vidas ocupadas com a tranquilidade de ter alguém sempre por perto. A mãe, professora do ensino básico, tinha uma precisão na rotina que parecia imitar os Ver más